Existem várias maneiras de compreendermos a depressão. Como já mencionei em outras ocasiões, ela não é resultado de um único fator, mas de múltiplas causas que se entrelaçam.
Hoje, quero abordá-la a partir de uma imagem, de uma alegoria: o infarto da alma.
Uma espécie de estrangulamento interior, provocado pelo acúmulo de emoções não expressas e pelos traumas da vida que não foram devidamente elaborados, que estrangulam a alma, comprometendo o bom funcionamento do corpo.
Para entender melhor essa ideia do infarto da alma, recorro a uma analogia com a medicina. O infarto do miocárdio acontece quando placas de gordura se acumulam nas artérias coronárias, obstruindo a circulação sanguínea. Quando uma dessas placas se rompe, forma-se um coágulo que interrompe o fluxo de sangue, comprometendo o bom funcionamento do coração, que acaba colapsando.
Segundo dados amplamente divulgados, as doenças cardíacas seguem entre as principais causas de morte no Brasil. Também, segundo dados estatísticos, a depressão tem se tornado uma das principais doenças do século XXI. Dados apontam que em 2030 a depressão será a doença mais comum e mais debilitante do mundo.
O médico Drauzio Varella afirma que sentimentos como sofrimento emocional, estresse e inquietação interior estão entre os principais fatores de risco para doenças do coração. Isso mostra de modo muito claro que o corpo nunca adoece sozinho. O que está na alma afeta o corpo e vice-versa.
Ainda hoje, persiste uma separação artificial entre corpo e alma. Tratamos o físico com atenção, mas frequentemente colocamos o emocional e o psíquico em segundo plano.
A dicotomia entre corpo e alma tende ser intensificada no ambiente cristão onde, em geral, as questões emocionais são facilmente confundidas com questões espirituais. O resultado funesto da supervalorização do lado espiritual em detrimento da vida emocional leva muitos crentes a sofrerem calados, escondendo problemas emocionais que poderiam ser tratados e superados. Entendem de modo totalmente equivocado que cuidar da alma é sinal de fraqueza espiritual.
Essa divisão tem mais relação com influências filosóficas — como a do neoplatonismo — do que com o ensino de Jesus. Basta ler os evangelhos com atenção para ver que Deus se importa com o ser humano inteiro. Jesus deixou isso muito bem claro, quando disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” (João 10:10).
O teólogo Irineu de Lyon disse que a “A glória de Deus é o ser humano plenamente vivo.”. Essa frase é um manifesto contra qualquer espiritualidade que despreze a vida presente. Peter Scazzero, em Espiritualidade Emocionalmente Saudável, diz que “Não devemos nos tornar ‘não pessoas’ quando nos tornamos cristãos.” A fé cristã não anula a vida — ela a ressignifica.
A palavra grega para alma é psique. Em alguns contextos, ela também pode ser associada à ideia de “borboleta”. Você consegue imaginar uma borboleta carregando uma mochila cheia de pedras? Mas, não é por conta disso que muitas pessoas, sobrecarregadas por culpas, dores, frustrações e traumas estão vivendo e por conta disso se deprimindo?
Outra raiz da palavra alma remete a “sopro” ou “respiração”. A alma está ligada ao movimento da vida. Quando o suave fluir da alma é interrompido, o resultado é o sufocamento interior – o infarto da alma. A depressão, nesse sentido, pode ser entendida como: uma alma sem ar. Na depressão o cansaço e a apatia tiram a beleza e a leveza da alma. Não é somente falta de ânimo —
é falta de fôlego existencial.
Na medicina o infarto do miocárdio pode ser revertido a partir de um cateterismo, que desobstrui a artéria, liberando o fluxo sanguíneo. No infarto da alma é preciso convidar aquele que sofre a falar do seu sofrimento, como forma de desobstruir as emoções que estão estrangulando a alma. O remédio para o infarto da alma é a fala.
Anselm Grün diz que na depressão a alma pede a palavra. Por isso, diz Grün, “Antes de tentar eliminar a depressão, é preciso escutar o que ela quer dizer.” Carl Gustav Jung disse que é preciso imaginar a depressão como uma senhora vestida de preto, que chega silenciosamente. Ao invés de expulsá-la, por conta do incomodo da sua aparência, é preciso convidá-la a sentar-se à mesa, dando-lhe a oportunidade de se expressar, de falar.
Se a depressão é a alma pedindo a palavra, então o nosso maior erro é tentar silenciá-la. Vivemos tentando anestesiar aquilo que deveria ser escutado. Apressamo-nos em calar a dor, quando, na verdade, ela carrega uma mensagem. Fugimos da senhora vestida de preto, sem perceber que ela não veio para nos destruir, mas para revelar aquilo que existe uma tristeza, uma amargura, um sofrimento silencioso que não pode mais permanecer escondido.
A alma não adoece de repente. Ela vai sendo sufocada aos poucos — pelas palavras que não foram ditas, pelas lágrimas que não foram choradas, pelas feridas que foram ignoradas. Até que, um dia, ela entra em colapso. E quando isso acontece chamamos de fraqueza aquilo que, na verdade, é um grito de sobrevivência. Por isso, talvez o caminho não comece com respostas — mas com silêncio. Não com fuga — mas com coragem. Não com explicações rápidas — mas com escuta profunda. Escutar a alma é um ato de fé.
Se falo da depressão como o infarto da alma é para destacar que a fala é o seu resgate. Como bem diz o poema de William Shakespeare: “Dai palavras à dor. Quando a tristeza perde a fala, sibila ao coração, provocando de pronto uma explosão.”.
Toda alma que encontra voz… volta a respirar.
Coitada da última gota d’água. Quando a caixa d’água transborda, a culpa é sempre dela. Daí a expressão: “Essa agora foi a gota d’água que faltava.” E lá vai a coitada da gota d’água levando a culpa pelas demais gotas que, durante muito, muito tempo, foram se acumulando, até que a fatídica gota caísse no copo. Segundo uma tabela da SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), um gotejamento lento produz uma perda estimada de 10 litros de água por dia. Se for médio, 20 litros. Se for rápido, 32 litros. Faça as contas e veja quanto de água pode ser desperdiçado com um simples pinga-pinga. E quando essa água toda se acumula — seja em um copo, seja em uma caixa d’água — não tem jeito: um dia vai estourar. Vai transbordar. Quando as emoções “negativas” (uso as aspas porque, desde que sejam admitidas, não podem ser chamadas de negativas) se acumulam no mundo interior de uma pessoa, são como gotas d’água: mais cedo ou mais tarde, acabam transbordando. E é nesse momento...

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