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ASAS DE CERA: A DIFÍCIL, MAS IMPORTANTE RELAÇÃO ENTRE PAIS E FILHOS.


Louca temeridade a de quem voa!
Deus invisível, nos acaroçoa,
Nesta jornada para a perfeição,
Porém se o Sol as asas te derrete,
Se o desânimo acaso te acomete,
Sobe sempre nas asas da ilusão!

Na mitologia grega Dédalo é o pai de Ícaro. Diz o mito que ambos foram jogados no labirinto, onde habitava o terrível minotauro – um monstro com corpo de homem e cabeça de touro – que devorava os que ali eram jogados. Por ironia do destino foi Dédalo que com sua sabedoria criou o labirinto a pedido do rei Minos, o mesmo que mais tarde o lançaria lá dentro. É a velha história do feitiço que se volta contra o feiticeiro.

Por que Ícaro, o filho de Dédalo, é lançado juntamente com o seu pai no labirinto? Penso que esta foi a forma cruel do rei Minos de acrescentar um sofrimento a mais no castigo imputado a Dédalo. Por outro lado é a velha história do justo pagando pelo pecador. Para um pai não existe angústia maior do que ver o filho sofrendo em virtude dos seus próprios erros. E é assim que Dédalo se preocupa não em salvar a própria pele, mas em salvar a vida do filho.

Ícaro é vítima do erro do pai. Dédalo até que tenta reverter esta situação, ou pelo menos minimizar as conseqüências do seu erro. Sendo ele um homem inteligente tem a idéia de construir um par de asas para o jovem Ícaro, pois voar era a única maneira de sair do labirinto e consequentemente se ver livre da morte. É assim que Ícaro sai do labirinto, enquanto Dédalo resignado aguarda a sua própria morte.

Construir asas oferecia para o jovem Ícaro o desejo comum a todos os jovens: a liberdade. Quem sabe ele alçou vôo cantando: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós.”. Mas triste sorte teve o jovem Ícaro ao voar alto demais, aproximando-se do sol e vendo as suas asas, que foram feitas de cera, se derretendo. Ícaro cai em queda livre e morre afogado no mar Egeu.

Penso que do mito de Dédalo e Ícaro no labirinto podemos extrair algumas lições, para a complexa relação entre pais e filhos:

Primeiro: Como pais não podemos e nem devemos impedir que os nossos filhos voem. Mas podemos e devemos oferecer o melhor material possível para que eles formem asas que não sejam de cera, ou seja, vulneráveis ao calor e as pressões da vida. Educar é preparar para o futuro. Educar é preparar para o mundo. Para o momento em que os filhos voarão com suas próprias asas. Mas se eles vão voar e deixar o ninho vazio, que voem com segurança.

Segundo: Como pais não podemos e nem devemos segurar os filhos no ninho. Afinal de contas os filhos não são prisioneiros dos pais. Mas não podemos soltá-los no mundo, sem orientá-los em relação aos riscos de uma liberdade desvairada. É preciso que eles saibam relacionar liberdade com responsabilidade para que não morram precocemente, não como Ícaro morreu, mas, por exemplo, em um acidente de carro por estar dirigindo embriagado.

Terceiro: Pais! A melhor maneira de proteger os filhos das intempéries da vida é vivendo uma vida que deixe para eles a maior de todas as heranças: um bom exemplo de vida. A Bíblia diz: “O homem de bem deixa herança aos filhos de seus filhos, ...” (Pv. 13: 22)

Quarto: Filhos! Assim como não adianta chorar o leite derramado. Não adianta também ficar lamentando o erro dos pais. É preciso agir com criatividade, sensatez, rapidez e acima de tudo com confiança em Deus, para sair dos labirintos que são impostos pela vida. Afinal de contas: ninguém é perfeito!

Ailton Gonçalves Desidério

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