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Do imaginário a realidade. Da frieza do natal a ceia insossa do ano novo


Aqui estamos nós celebrando mais um natal, mais um ano novo. Graças a Deus! É possível que no meio de tantas atividades, tanto trabalho, tantos projetos, tantas lutas, você só tenha se dado conta que estamos terminando o ano quando começou a ver as propagandas de natal na televisão. O tempo é cruel! Como diz o poema “O TEMPO”, de Olavo Bilac: “Sou o tempo que passa, que passa/ Sem princípio, sem fim, sem medida/ Vou levando a Ventura e a Desgraça/ Vou levando as vaidades da vida.”

Natal é a festa máxima do nosso calendário, e todo natal é a mesma coisa: lá vem aquele velhinho simpático, de barba branca, todo encapuzado, lá do fim do mundo, dizem que é do pólo norte, onde o frio corta até a alma, trazendo um saco pesado e cheio de presentes sobre as costas, mas sem reclamar: “Ôôôô....”. O comércio ferve! As pessoas se atropelam! O frenesi é geral. Presentes caros, presentes baratos, e lá estão aqueles que vão passar mais um natal sem receberem um presente se quer. Que frieza! É a vida!

O ano novo é outra festa supimpa regada, com muita comida e muita bebida. Uma festa típica de Baco (na mitologia romana Baco é o deus do vinho, das festas, do lazer, do prazer, e da folia). Quando dá meia noite a histeria é total: os fogos explodem no céu, as pessoas se abraçam, se beijam, se confraternizam, mas muitos passarão mais um ano sem se quer receberem um aperto de mão. Que coisa insossa! É a vida!

As festas, as celebrações, são verdadeiras produções do nosso imaginário onde tudo dá certo, onde todas as coisas se harmonizam, onde o final é sempre feliz. Pelo menos até o momento em que o imaginário não é cortado por um dado da realidade, que como um intrujão, um convidado chato que não foi convidado para a festa, aparece de forma inesperada e estraga tudo.

O que seria a vida se não fossem as festas, os momentos de devaneios, onde por alguns instantes nos desconectamos da realidade: da luta, da dor, do sofrimento, dos problemas da dura realidade da vida? Seria muito, muito chata. As festas adoçam e temperam a vida. Onde já se viu uma festa sem aqueles docinhos tentadores e sem aqueles salgadinhos crocantes! Se é pra celebrar, então vamos celebrar direito: “Tudo é paz...”, “Adeus ano velho...”.

Toda a festa opera e direciona o nosso imaginário, os nossos pensamentos, as nossas elucubrações. Qual o direcionamento do Natal e do Ano Novo? Esse é o problema! Muitos não sabem. Comemoram, pulam, se abraçam, comem, bebem, mas sem a noção do que estão comemorando. É por isso que algumas pessoas não gostam dessas festas. Porque as vêem como pura hipocrisia, falsidade. Não é bem assim, mas ao mesmo tempo não deixam de ter certa razão.

Alguns políticos que durante todo o ano desviaram a verba da saúde, da educação, da segurança, provocando males irreparáveis na vida de muitas pessoas, agora enviam cartões de natal, colocam faixas na rua, fazem pronunciamentos pomposos dos seus palácios, desejando Feliz Natal e Próspero Ano Novo para aqueles que durante todo o ano eles simplesmente desprezaram, ignoraram.

Mas antes de nos projetarmos em cima das falhas e defeitos dos outros precisamos considerar se o nosso telhado não é de vidro. Alguns pastores, padres, religiosos que se dizem guardadores das leis e dos bons costumes, também não escapam. Com suas becas engomadas, seus ternos e gravatas importados, emolduram a voz, e apresentam uma mensagem de amor e paz que não tem ressonância bíblica. É que durante todo ano manipularam a Bíblia enganando os pobres coitados com bênçãos, milagres, em troca de favores divinos, tão bem representados pelo vil metal.

Num momento como este, onde a cidade fica toda colorida, onde as pessoas parecem mais doces, onde o “espírito do natal” (não sei que entidade é essa) aparece nas belas músicas de natal, nas peças natalinas, nos presentes colocados debaixo de uma árvore muito bem enfeitada, como se fossem verdadeiras oferendas; dá vontade de agir como um diretor de cinema que interrompe a filmagem gritando: “Pára tudo! Vocês estão fazendo tudo errado! Precisam ser mais sinceros, mais autênticos. Se continuarem assim o público vai logo perceber que é tudo falsidade. Vamos começar tudo de novo.”.

O ano novo é isso: uma oportunidade ímpar e singular de começar tudo de novo, com a vantagem de já sabermos um pouco mais sobre o funcionamento de determinadas coisas. Por exemplo: como as palavras podem produzir bons ou maus efeitos, como a postura frente à vida pode evitar ou criar problemas, como uma fé sincera em Deus pode ajudar a superar o inesperado que todo tempo comporta. A vida é um eterno aprendizado e o que aprendemos hoje com certeza nos será útil amanhã.

Entre o imaginário e a realidade. Entre a frieza do natal e a ceia insossa do ano novo, eu desejo de coração que você tenha Um Feliz Natal e um Abençoado Ano Novo!

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