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VOU OU NÃO VOU? FAÇO OU NÃO FAÇO? DECISÃO X INDECISÃO


Você tem facilidade ou dificuldade em tomar uma decisão? Quando você quer comprar um bem você compra na primeira loja que entra ou entra várias vezes na mesma loja até comprar? Há quanto tempo você está namorando, está noivo, preparando-se para casar: três, quatro, sete, dez, vinte ou vinte cinco anos? Não estou brincando! Conheci um casal que esperou vinte e cinco anos até o casamento, mas uma semana depois cada um foi morar na sua própria casa por não ter se ambientado com a vida de casado.

Decidir é preciso, mas não é fácil. Ninguém consegue passar pela vida sem ter que tomar algumas decisões. Viver é uma decisão. Passar um longo período sem decidir é muito mais angustiante, estressante, do que decidir errado. Quem decidi errado tem a possibilidade de rever e corrigir a sua decisão, mas como corrigir o que ainda não foi decidido.

Gastamos muito mais energia parados, remoendo os pensamentos, pensando se vamos ou ficamos, se fazemos ou deixamos de fazer, do que agindo em direção a uma decisão tomada. A depender do metabolismo de cada um a indecisão pode gerar tanto a obesidade quanto o emagrecimento. Se a indecisão gera um vácuo emocional que algumas pessoas tentam eliminar enchendo o estômago; o emagrecimento é o resultado de uma apatia em relação a vida, onde a comida fica sem graça. Comer pra quê?

O que poucos consideram é que a indecisão pode ser um sintoma psíquico. A indecisão pode ser fruto de um medo extremo em lidar com o que é desconhecido e, portanto, assustador. Por incrível que pareça, e é incrível por ser inconsciente, o medo do indeciso não é que as coisas deem errado, mas que deem certo. Lidar com o capital da satisfação de um desejo pode ser tão assustador que a pessoa acaba se boicotando. Por exemplo, a ejaculação precoce não poderia ser vista como um sintoma relacionado ao medo do prazer sexual, dado ao forte componente psíquico que ela comporta?

Pensar a indecisão como um sintoma psíquico não significa classifica-la como doença. Hoje em dia tudo tende a ser classificado como uma nova doença, abrindo assim espaço para um novo medicamento, para a pílula milagrosa da felicidade. É assim que a ciência força o corpo a funcionar como uma máquina, ou seja, desapropriado dos seus sentimentos, das suas emoções, do seu psiquismo. O sentimento não importa. O que importa é que o corpo funcione. Tome viagra! Tome tarja preta! A máxima científica da supremacia do corpo sobre o espírito tem criado uma geração andrógena, robotizada, mecanizada, salpicada aqui e ali com atos requintados de crueldade.

Não vai aqui nenhum estímulo do tipo: “levante-se! Tome uma decisão! Você pode! Você consegue!”, mas sim uma reflexão que lhe ajude a identificar as causas dessa indecisão que o paralisa. O principal problema da indecisão é que ela despreza as oportunidades, as possibilidades do novo, do diferente, da superação, o que faz com que o indeciso passe pela vida sem nunca ter vivido. Não existe coisa mais triste na vida do que não viver, mesmo estando vivo.

Os crentes falam muito sobre tomar uma decisão. Nós pastores gostamos de pregar em alto e bom som: “você precisa tomar uma decisão ao lado de Cristo. Decida hoje porque amanhã pode ser muito tarde.” Em seguida a congregação canta arrastado: “Ao findar o labor dessa vida...” Tudo bem! Não existe nada mais significativo do que a decisão de aceitar a Cristo como Senhor e Salvador. Mas, por outro lado, não existe nada mais tacanho e mortífero do que uma fé medrosa, com cheiro de mofo, que não se aventura, que não corre riscos, que ao invés de funcionar como trampolim para a celebração da vida, funciona como muleta.

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