Na década de sessenta, mas precisamente no ano de 1968, na França, estudantes e trabalhadores tomaram as ruas de Paris bradando o seguinte slogan: “É proibido proibir”. Esse grito de protesto era em favor da liberdade sexual e contra a opressão, dentre outras coisas. Esse movimento ficou conhecido como contracultura. Em particular vejo as décadas de sessenta e setenta como décadas de ouro. Havia ideologia, inquietação, vontade de mudança e disposição para efetuar as mudanças.
Hoje ainda existem muitas pessoas com o mesmo sentimento de transformação, mas a luta ficou muito mais desigual e desleal, porque essas pessoas estão isoladas, não geograficamente, mas pela produção dos movimentos midiáticos de manipulação, que focam temas sem importância em detrimento de outros de maior importância. Capturaram a revolta e a insatisfação pela via da permissividade. A libido, enquanto energia catalisadora da mudança foi capturada pela erotização. Tudo hoje é só sexo, sexo e sexo.
Antes o inimigo era visível e concreto. Hoje é virtual, quase holográfico, e por conta disso a luta ficou muito, muito mais difícil e desigual. Como lutar contra a poderosa imagem da coisa? A mídia é essa coisa estranha, que sem nenhuma neutralidade tem se encarregado de subverter os valores essenciais que deveriam nortear a vida em sociedade. Tem também transformando porcarias, lixo, em objetos de consumo e alienação.
Não vai aqui nenhum sentimento saudosista. Tenho convicção de que hoje é bem melhor do que ontem, pelo simples fato de que esse é o nosso tempo. Por outro lado também fico pensando como a vida daquele tempo deveria ser chata sem as televisões de LED, LCD, de trocentas polegadas; sem computador, sem internet wi-fi, sem Ipad, Ipod, Iphone e outros celulares que só faltam falar – isso por conta das operadoras que prometem sinal digital de alta qualidade, mas só pegam em locais pré estabelecidos, e quando pegam. Deveria ser uma vida muito chata, não é mesmo?
A questão é que o lema da década de sessenta: “é proibido proibir”, já ficou totalmente ultrapassado. Hoje praticamente não existe mais o que proibir. Proibir o quê? Por conta da desconstrução intensa, contínua e com maior precisão do que os mais poderosos mísseis teleguiados de alta destruição, detonaram e estão detonando cada vez mais os valores familiares e morais. Para muitos hoje moral e caráter são palavras que deveriam ser simplesmente abolidas do dicionário. Alguns fogem da moral assim como o diabo foge da cruz. Não tem problema. A graciosa mensagem da cruz tem alcançado e transformado a vida de muitos imorais no decorrer dos séculos, dos anos e ainda hoje.
Como bom poeta que é, Caetano Veloso colocou muito bem o pensamento da contracultura na música, “É proibido proibir”, que tem o seguinte refrão: “E eu digo não/E eu digo não ao não/Eu digo: É!/Proibido proibir/É proibido proibir/É proibido proibir/É proibido proibir...”. Mas com tudo o que temos visto hoje, fruto de uma permissividade desenfreada, sem limites, será que é realmente proibido proibir? Será que a colocação de alguns limites, do tipo: “daqui você não pode passar”, são tão ruins assim? Hoje a versão atualizada do refrão “É proibido proibir”, mas despojada de qualquer ideologia, é: “Libera Geral!”.
Será que o desrespeito, a desordem e o desmando que estamos vendo e vivendo hoje, não poderiam ser vistos como reflexos da banalização dos limites? Será que o incentivo a liberação e satisfação de todos os desejos e impulsos sexuais, hetero e homossexuais, não tem contribuído para o aumento da pedofilia e da prostituição infantil? Será que o aumento dos casos de alunos agredindo professores em sala de aula, não estão relacionados a fraqueza e até mesmo a ausência da autoridade paterna dentro da família? Será que o aumento dos casos de bullying não estão relacionados a falta de respeito, enquanto um valor que deveria ser ensinado e cultivado dentro de casa?
Será que é realmente proibido proibir? É pra liberar geral?
Existem várias maneiras de compreendermos a depressão. Como já mencionei em outras ocasiões, ela não é resultado de um único fator, mas de múltiplas causas que se entrelaçam. Hoje, quero abordá-la a partir de uma imagem, de uma alegoria: o infarto da alma. Uma espécie de estrangulamento interior, provocado pelo acúmulo de emoções não expressas e pelos traumas da vida que não foram devidamente elaborados, que estrangulam a alma, comprometendo o bom funcionamento do corpo. Para entender melhor essa ideia do infarto da alma, recorro a uma analogia com a medicina. O infarto do miocárdio acontece quando placas de gordura se acumulam nas artérias coronárias, obstruindo a circulação sanguínea. Quando uma dessas placas se rompe, forma-se um coágulo que interrompe o fluxo de sangue, comprometendo o bom funcionamento do coração, que acaba colapsando. Segundo dados amplamente divulgados, as doenças cardíacas seguem entre as principais causas de morte no Brasil. Também, segundo dados estatíst...

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