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EROS E PSIQUE: QUANDO O AMOR ACABA!


O amor é revestido de mistério e é justamente quando esse mistério é desvelado, descoberto, que uma pessoa que antes se sentia plenamente enamorada pela outra, diz: "o meu amor acabou".

Reza o mito que Psique era uma jovem muito bonita e por conta disso muito admirada pelos mortais. Tal admiração despertou um grande ciúme em Afrodite, a bela deusa do amor, da beleza e do sexo, que condenou a Psique a viver no alto de uma montanha, totalmente isolada dos demais mortais, tendo como destino se tornar noiva de Thanatos, a morte. Que triste sina para uma jovem tão bonita.

Abro aqui um parêntesis: a morte ronda o nosso psiquismo. Freud disse que a pulsão movida por Eros, o amor, busca a unidade de todas as partes como forma de preservação da vida. Já a pulsão de morte, regida por Thanatos, busca a desagregação e tem por objetivo o repouso, o fim, como forma de eliminação de toda e qualquer tensão. É no psiquismo que essas duas tensões se debatem e se equilibram. É é a partir desta tensão que a vida flui.

Fecho o parêntesis. Voltemos ao mito. Inconformada por ficar isolada no alto da montanha, Psique decide ir em direção ao vale. Até porque se em breve a morte viria lhe pegar era melhor caminhar para encontrar uma saída, do que ficar esperando ela chegar. Observe bem, se a morte nos ameaça de um lado, por outro ela nos convida ao movimento. Caminhar é preciso!

É caminhando pelo vale que Psique conhece Eros, por quem fica perdidamente apaixonada. Abro mais um vez um parêntesis para dizer que pessoas que se sentem ameaçadas se apaixonam facilmente. Afinal de contas, nada melhor do que um grande amor para escapar do abandono, da desilusão, porque não dizer da morte. Fecho o parêntesis.

Eros, no entanto, não se deixa conhecer de modo pleno. Ele esconde de Psique um segredo muito importante: ele era filho de Afrodite. Certamente se Psique soubesse disso não se enamoraria por ele. Não é assim que algumas pessoas escondem da pessoa amada um segredo, com medo de perder o grande amor da sua vida? Mas esse negócio de esconder as coisas, de mostrar o que não é, em geral não acaba bem.

Eros só visitava Psique quando a noite caía, para que ela não descobrisse a sua real identidade. Sempre era um encontro as escuras. Como diz o ditado: "a noite todos os gatos são pardos". Interessante é que uma das justificativas dadas para a separação é a seguinte: eu não a(o) conhecia. Estava cega(o). Mas será que estava ou quis ficar? É bem verdade que o ditado popular diz que o amor é cego. Será que é mesmo ou a pessoa enamorada por uma outra só se preocupa em ver o que lhe interessa?

Acomodada a situação Psique aceitou durante um bom tempo o segredo de Eros. Mas com o passar do tempo e com as palavras das irmãs que sempre perguntavam como ela poderia ficar com uma pessoa que não conhecia, Psique elabora um plano para descobrir esse segredo tão bem guardado. É assim que numa determinada noite ela esconde perto da cama uma lamparina que seria acesa quando Eros pegasse no sono.

Ansiosa por descobrir o segredo Psique acende a lamparina assim que Eros pega no sono. Mas ela não consegue controlar o nervosismo e por conta das mãos trêmulas deixa cair uma gota do óleo quente no rosto de Eros. Ele acorda sobressaltado e ao ver que Psique descobriu a sua verdadeira identidade a amaldiçoa, abandonando-a novamente no alto da montanha para ficar a espera do terrível Thanatos.

O fim de um relacionamento tem um certo paralelo com a morte. É assim que tomadas por tamanho desamparo, frente a uma perda amorosa tida como irreparável, algumas pessoas num ato de total desespero cometem o desatino de atentarem contra a própria vida. Outras ficam tão afetadas que passam a esperar languidamente morte chegar, assim como Psique ficou no alto da montanha aguardando a funesta chegada de Thanatos.

O amor entre Eros e Psique foi um amor nutrido na escuridão, na ilusão, assim como muitos relacionamentos hoje em dia. Jane Goldberg diz que "O amor romântico é cego porque se baseia na fantasia e na ilusão; é olhar para as esperanças e os desejos íntimos e não para a realidade da outra pessoa.". Por outro lado, diz Goldberg "Quando descobrimos a verdade nua e crua sobre nosso amado - suas imperfeições e traços humanos - sentimo-nos traídos por ele e pelo amor. Frequentemente não suportamos o choque da desilusão, e em vez de perseverar nesse amor e fundamentá-lo na realidade e não na ilusão, destruímo-lo definitivamente."

É assim que o amor acaba. Mas tem que ser assim? Será que não tem outra saída?

Comentários

Aline Pujals disse…
Texto perfeito 🤓
Compartilhando já!!!

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