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AS PEQUENAS PAUSAS DA VIDA

Não sei se você já observou, mas na Bíblia, em especial no livro de salmos, vez por outra aparece uma palavra no final de alguns versículos, por vezes colocada entre colchetes, que muitos não entendem o seu significado. Estou falando da palavra selá, no hebraico. Eu inclusive já ouvi algumas leituras bíblicas onde o leitor pronunciou, “selá”, deixando o auditório com aquela interrogação: será que ele agora está falando como o Cebolinha da turma da Mônica? Mas a palavra selá aparece na Bíblia como um sinal e deste modo não é para ser lida, mas sim entendida. Uma das interpretações para a palavra selá, que aparece setenta e uma vezes nos salmos e também em Habacuque 3, é pausa. Então, ao encontrar esta palavra na Bíblia você deve ter em mente que o livro de salmos era o hinário dos hebreus e que naquele lugar onde a palavra selá aparece o cantor deveria fazer uma pausa. Pra que? Para refletir no que estava cantando e nos pensamentos suscitados a partir daquela mensagem. As pausas para...

NOMES PRÓPRIOS E ADJETIVOS

Somos o que somos não por conta do nome que recebemos, mas dos adjetivos que nos são dados por pais, familiares e amigos. Inteligente! Burro! Bonito! Feio! Gordo! Magro! Cabeção! Idiota! Estabanado! Etc. As palavras têm o poder de criar sulcos, valas, caminhos sinuosos, assim como os rios, que acabam influenciando o curso da vida, positiva ou negativamente. Em geral as palavras acabam fazendo um pouco das duas coisas. Quando nascemos recebemos um nome e sobrenome. Os nomes escolhidos refletem o gosto do pai, da mãe, ou dos dois. Nomes possuem significados e durante o período da gravidez os pais chegam a consultar o dicionário do significado dos nomes. É assim que: Aline significa graciosa e elegante, Almir – brilhante e capaz, Denise – gentil e amante da beleza, Paulo – disposto, corajoso; e por aí vai. Penso que a força de um nome não está no nome e nem no sobrenome propriamente ditos, mas no adjetivo. Sem dúvida que o nome tem sua influência sobre a pessoa, mas o que é dito a esta pe...

COMO LIDAR COM A DOR

COMO LIDAR COM A DOR Não pretendemos aqui discutir o controverso conceito de cura. O nosso objetivo é o de falar sobre a dor. Mas o que vem ser a dor? Sabemos que existem dores e dores. Uma é a dor objetiva, do tipo: dor de dente, dor de cabeça, dor de ouvido, dor no estômago, dor no peito, etc. Outra é a dor subjetiva, do tipo: dor da separação, dor da decepção, dor da traição, dor da desilusão, etc. Podemos dizer que a depressão, a melancolia, a angústia, o medo, são alguns dos sintomas que surgem em decorrência da dor subjetiva. Escrevi a tempos atrás um artigo com o seguinte título: “A dor do crescimento”; onde fiz referência a queixa de algumas crianças que dizem sentir dor nas pernas. É a dor do crescimento. O fato é que crescer dói. Invariavelmente as grandes lições da vida são aprendidas pelos impasses que enfrentamos na vida, ou seja, pela dor que não procuramos, muito pelo contrário, que tentamos evitar, mas que insiste em aparecer nos momentos mais inapropriados. Dor é ass...

O DIABO DO DESEJO

Não existe nada mais desconcertante e ao mesmo tempo arrebatador do que o desejo. Refiro-me ao desejo inconsciente, transgressor por natureza, que busca a qualquer preço sua realização. O conflito entre o desejo e sua realização se deve ao fato de que nem tudo o que desejamos pode ou deve ser realizado. Ainda bem! Só que o desejo é como um rio que impedido de percorrer o seu curso natural abre caminho numa outra direção, e se por um motivo qualquer a água é represada é preciso saber que o silêncio e a calmaria de uma situação aparentemente controlada pode ser prenúncio de uma tragédia iminente. Não é fato incomum confundir o desejo com o diabo e a partir daí responsabilizar o demo por atos e ações que apontam para a realização de um desejo reprovado socialmente, biblicamente, mas que insiste por sua realização. Muitos recorrem a fé em Deus como forma de encontrar refúgio para o desejo, mas se a fé oferece amparo é preciso saber que ela também nos convoca para a briga, para o enfrentam...

QUEM VAI PAGAR O PATO?

QUEM VAI PAGAR O PATO? Quem vai pagar o pato eu não sei, mas uma coisa é certa: cada um tem que dar conta do seu pathos. Queiramos ou não somos todos seres patológicos e é por conta disso que em determinados momentos da vida andamos meio desequilibrados, assim como os patos. Você já viu como os patos andam? Andam muito esquisito, não é mesmo? A palavra grega pathos, de onde vem a palavra paixão, significa: “receber uma impressão, sofrer um tratamento bom ou mau, suportar com paciência, ser castigado”; mas o sentido básico de pathos é: “o que se sofre, o que se sente” (José Luiz Fiorin – “Cadernos de Semiótica Aplicada. Vol. 5.n.2, dezembro de 2007. Usp), de onde vem a palavra patologia. Paixão e patologias são palavras interligadas entre si. Você já ouviu a música: “Você não vale nada, mas eu gosto de você”? É! Essa mesmo! Tema daquela personagem da novela das oito que você gosta de assistir. Pode ficar tranqüilo! Não é só você que faz isso. Sabe por que ela está fazendo tanto suces...

MATRIMÔNIO, MANICÔMIO, PANDEMÔNIO, DEMÔNIO

Essa é boa! Era um sábado a tarde e eu estava de plantão na enfermaria de acolhimento a crise, no hospital psiquiátrico onde estagiava. Não tinha quase nada para fazer a não ser acompanhar e observar os internos, que neste plantão estavam bem calmos. Havia nesta enfermaria uma sala de convivência, onde alguns pacientes passavam o tempo distraindo-se com atividades lúdicas. Chego nesta sala e logo se aproxima de mim uma velhinha, muito simpática, de cabelos bem branquinhos e diz: “Doutor o meu filho disse que vai pedir a mão da namorada dele em casamento. O senhor acha isso certo?” No que perguntei: “Qual o problema dele pedir a mão da namorada em casamento?” Ela respondeu de pronto: “quando ele nasceu eu perguntei ao médico se ele era perfeito, ou seja, se ele tinha dois olhos, dois ouvidos, duas mãos, dois pés. E o médico disse que sim. Então, perguntei para o meu filho: por que você quer mais uma mão?” Achei engraçado e comecei a rir; ela também esboçou um sorriso em seu rosto enru...

DÚVIDA CRUEL!

Desde o início do nosso aprendizado fomos ensinados sobre as virtudes do pensamento. Decartes, tido como o pai do pensamento científico, formulou a seguinte máxima: “penso, logo existo”. Tal formulação baseia-se no seguinte raciocínio: “Se duvido penso”, e se “penso, logo existo”. Para Decartes a dúvida deve ser levada a última instância, se é que tal instância existe. A dúvida é cruel! Sem dúvida! Ainda mais num momento caracterizado por tantas certezas como este em que vivemos, chamado “pós-moderno”. Uma leitura desse nosso tempo chega a ser no mínimo esquisita: de um lado observamos uma vasta produção de saberes, de certo modo, a partir do postulado cartesiano; do outro o que vemos é uma certeza tão forte que é como se estivéssemos vivendo a era das convicções plenas. Por que a maioria das pessoas buscam eliminar as dúvidas com certezas, que por vezes não são tão certas assim? É que a dúvida produz inquietação, insegurança e expectativas inquietantes. A certeza, por outro lado, p...