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O RESTO DE ONTEM

Depois do almoço farto, em que todos saem satisfeitos, a pergunta que a maioria das donas de casa faz é: “O que eu vou fazer com o resto?”. Isso porque, em geral, a porção da comida preparada é sempre maior do que a soma de todos os estômagos presentes. Uma maneira que encontraram para lidar com a sobra da comida foi promover um outro encontro, chamado criativamente de “enterro dos ossos”. Uso essa ideia para dizer que, na vida, sempre existe um resto que transborda para o dia seguinte. Resto emocional que, às vezes, vem de dias, semanas, meses ou até anos. Lidar com o resto de ontem, das nossas emoções, não é tarefa fácil. Como seria bom se pudéssemos fazer um “enterro dos ossos” dos nossos restos emocionais. Mas os restos emocionais não podem ser queimados; na verdade, quando não tratados devidamente, eles é que queimam por dentro. A vida é feita de encontros e desencontros, que sempre deixam um resto. Encontros bons, positivos, deixam restos de alegria, satisfação e felicidade. J...

SUICIDIO DOS ANJOS

As sete cartas escritas às sete igrejas da Ásia (Ap 2 e 3) começam da mesma forma: “Ao anjo da igreja...”. A interpretação mais comum é que essas cartas são endereçadas às igrejas, a partir de seus líderes — os pastores. Mas que tipo de anjo é o pastor? Ele voa? Sente fome? Sente frio? Tem necessidades? A palavra “anjo” (angelus no latim e ángelos [ἄγγελος] no grego) não tem relação direta com a figura do pastor, pelo menos não no sentido pleno da palavra. A única semelhança é se considerarmos o pastor como aquele que é portador de uma mensagem da parte de Deus. Sou pastor há trinta anos e nunca consegui voar, transmigrar, nem mesmo levitar. Também nunca consegui acertar sempre, nem ficar um dia sequer sem pecar. Pastor é gente, de carne e osso. Uns têm mais carne do que osso; outros, mais osso do que carne. Tudo bem! Cada um é cada um. Mas, infelizmente, algumas pessoas — irmãos em Cristo — acham que o pastor é um anjo no sentido pleno da palavra. Mais grave do que isso é quando o p...

5 SEGUNDOS DE PUNIÇÃO

Creio que não existe um pai que já não tenha colocado o filho de castigo por alguns minutos, algumas horas ou até mesmo por alguns dias, dependendo, é claro, do que o filho tenha feito. Mas colocar o filho de castigo por 5 segundos seria demais, não é mesmo? Imagina um pai dizendo ao filho: “O que você fez foi muito feio. Então, senta aí no sofá e fique de castigo por 5 segundos.” Hilário! Nenhum pai faria isso. Ou faria? Mas acredite! Um castigo de 5 segundos foi aplicado a um marmanjo. Estou me referindo à penalidade aplicada ao corredor tricampeão Lewis Hamilton no GP do Bahrain deste ano, por ter diminuído a marcha do carro mais do que deveria ao parar no box, apenas para atrapalhar e prejudicar o outro corredor que vinha atrás. Que coisa feia! Pode isso, Arnaldo? Perguntaria o pitoresco Galvão Bueno, se fosse uma infração num jogo de futebol. Quando vi o noticiário esportivo falando sobre essa penalidade aplicada ao Lewis Hamilton, pensei: uma penalidade de 5 segundos não é nada...

PARE DE RECLAMAR DA VIDA

Cada época carrega consigo o seu mal-estar. Não tem como evitá-lo. No entanto, quem nunca se percebeu dando mais valor ao passado do que ao presente, dizendo: "Naquele tempo..."? Sempre temos essa tendência de valorizar o passado e depreciar o presente, o que é uma grande besteira, pois ninguém pode viver no passado. Só se vive no presente. Por vezes, indevidamente, alguns crentes pensam que os tempos bíblicos retratados no Velho e no Novo Testamento eram melhores do que os tempos atuais. Não sei se você pensa assim, mas, apenas a título de comparação, permita-me fazer alguns recortes desses dois tempos bíblicos em relação ao nosso tempo. Viver no Velho Testamento era sentir na pele a dor de uma cirurgia sem assepsia, e o pior, a sangue frio. Estou falando da circuncisão, ou seja, a operação da fimose. Tudo bem que ainda hoje os judeus fazem isso, mas com certeza não cortam o prepúcio do menino com uma lasca de pedra afiada e sem anestesia. Entretanto, o sofrimen...

QUEM EDUCA OS FILHOS SÃO OS PAIS

Em um mundo de tantas ideologias controversas, espúrias, e, por que não dizer, malignas, existe uma que está tentando tirar dos pais o direito inalienável de educar seus filhos. Sob a justificativa do politicamente correto — que de correto não tem nada —, querem atingir em cheio a mente das nossas crianças. Com que intenção? Com que finalidade? Quem viver verá! Ou não verá, se Deus quiser! Tramita nos municípios e nos estados uma discussão sobre a inserção da ideologia de gênero no currículo das escolas. O que propõe essa ideologia? Propõe a desconstrução do conceito de família, composto por um homem e uma mulher, a partir do referencial masculino e feminino. Respeitando quem pensa diferente, a questão aqui é uma só: quem educa os filhos são os pais! A escola até pode contribuir para a convivência entre pensamentos diferentes e divergentes na sociedade, mas a transmissão dos valores espirituais e morais não pode ser vista como atribuição da escola. A escola não pode educar nossos fi...

O MAL DA VIDA

Para início de conversa, quero dizer que o mal da vida é a própria vida. Todo o movimento neurótico e doentio na vida reside no esforço hercúleo e insano de eliminar “o mal da vida”. Para aqueles que nutrem esse sentimento, promessa é o que não falta no mercado, tanto das indústrias farmacêuticas, com promessas de remédios que curam todos os males e eliminam todas as dores da vida, verdadeiros elixires da juventude, como, sejamos sinceros, as promessas das igrejas industrializadas, empresariais, mercantilistas, que prometem o que nem o próprio Jesus Cristo prometeu: vida boa, abastada, sem qualquer vestígio de dor, sofrimento, angústia, medo, desesperança, e por aí vai. A igreja só é lugar de vida quando ela não nega a vida com o mal-estar que a vida comporta. Penso que precisamos urgentemente de uma “desinstitucionalização” da igreja, assim como aconteceu na reforma psiquiátrica com a “desinternação” dos pacientes com transtornos mentais. Precisamos libertar os crentes das prisões, ...

A FÉ COMO SINTOMA!

É possível, frente à riqueza da fé bíblica, vivê-la como se fosse sintoma de uma neurose obsessivo-compulsiva, como escreveu Freud em seu texto “O Futuro de uma Ilusão”? Por que alguns homens da ciência desprezam a fé bíblica e alguns homens de fé desprezam a ciência? Quando comecei o curso de mestrado em psicologia, com viés psicanalítico, a professora responsável pelo curso fez a seguinte colocação em um encontro de orientação: “Ailton, você não me disse que era pastor!” A resposta foi imediata: “A senhora não perguntou.” O silêncio tomou conta da sala, onde somente eu e ela estávamos. Subentende-se que, se eu tivesse dito que era pastor, provavelmente não teria passado no processo seletivo. Mas tudo bem. O mestrado transcorreu bem e ela foi uma excelente orientadora. É fato que temos muitos crentes sinceros e dedicados ao estudo e à pesquisa, que conseguem articular muito bem as questões da fé com as questões relativas à ciência. Na verdade, elas não são inimigas. São irmãs. A fi...